controvérsias

"A cada mil lágrimas sai um milagre”

Alice Ruiz

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Berimbau Blues

Dinho Nascimento no PercPan 2007 São Paulo
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Menina Lívia (2005)

Menina Lívia acorda pesarosa e arrasta suas sandálias pelo chão de tijolos da casa. “Muito frio”, arrepiava, olhando a pia empilhada de louça suja e tentando encontrar uma caneca mais ou menos limpa.

“Rotina medonha. Mais um dia que preciso atravessar”.

Água na chaleira, a porta sendo aberta, os cachorros saudando esfomeados. Café solúvel, uma banana e um peso na alma.

“Nasci com esse peso. Nasci com um coração já carregado de dor. Dor milenar. Vim parar aqui, nessa lagoa de sons suaves e mato abundante. Vim por querer um mundo só meu, sem minhas entranhas ardendo em febre fria.”

Atravessa a sala, abre a porta de trás por onde o beija-flor espera para fazer seu vôo diário preciso e azul, de uma porta a outra. Senta no computador, onde tem sua vista cotidiana. A lagoa, às vezes lacônica, por vezes ruidosa. Céu e cercas de hibiscos, potes de ração. E longe, um morro descendo pela sua costa verde até a água.

“Amo esse lugar selvagem, de alma rude igual a minha. Quem me dera a pura existência dos transparentes seres e bichos. Não sabem as Aranhas, os Insetos, as Lagartixas, os Sapos, que a casa deveria ser minha. Eu invado sua mata natural. Mas tomam conta do que na verdade sempre foi deles. Os humanos não sabem conviver com vidas diferentes.”

Alguém online repete um bom dia que menina Lívia não ouve, atenta agora pela aproximação lenta e desconfiada da Saracura. De passo em passo, olhando para um lado e logo para o outro, aproxima-se da frente da casa, olha ao seu redor, sobe na pequena varanda, encontra o pote da cadela Zurra, certifica-se não estar sendo nem seguida nem vigiada, agarra com o bico somente um grão de ração e sai em disparada na direção da mata.

“Não existe nada mais vivo que a existência simples da descoberta de comida fácil num mato inconstante de chuvas e secas. Parei por aqui pelas estrelas cheias de céu negro. Buscando saber de mim. Decepcionada por não ser da mata. Por nunca poder ser inconsciência, curiosidade e instinto.”

O computador se mantém em luzes laranja, verdes, bips, mensagens. Zurra entra em casa e se deita ao lado da menina. Pela basculante, por onde todo anoitecer entra o aroma da Dama da Noite, observo a menina Lívia, olhos negros sempre úmidos, chorando o sal de vida vazia. Ela me olha todos os dias, eu, Datura, retorcida, com minhas flores brancas em forma de cone, com meus frutos – bolas verdes espinhentas.

“Ah, minha fiel companheira Zurra, ando cansada de tanto falar à toa. Não tenho amor, sem dinheiro, não tenho coragem, falta audácia e agora, falta alguma força. Sabe, acho essa Árvore muito atraente. Já sei de seus frutos mortais e suas flores alucinantes. Nem pra isso me levanto. Nem pra nada. Apenas como. Quase durmo. Quase nunca, nada. Tudo. Passou.”

Vento veio e trouxe bruma. Hoje Lívia não pára de me olhar. Todos os dias vejo sua tristeza, sua alma cega, vejo sua dor, corte de sangue, coração em dois. Convido no silêncio que venha esquecer-se abaixo de mim. Quero sua sina que não me rói, retenho seus pesadelos, pode vir. Por favor, não me olha mais assim, como todos os dias. Por favor, deite-se. Venha.

“Parece mesmo que essa Árvore tão sinistra me convida a chegar perto. Tenho mais medo dela que das Cobras. Raramente vejo vida em seus galhos, nunca os animais se aproximam e quando dormem em sua sombra, acordam tontos. Datura, Trombeta de Anjo. Muitos não voltaram do mundo onde seu chá de flores leva. Dez frutos e o sangue do coração pára. Dez frutos e dor acaba. Dez frutos.”

Parece que finalmente Menina Lívia vem se acostar no meu tronco. Posso fazer esquecer teu sangue sentimento escorrendo por dentro. Mas também faço esquecer você correr com Zurra, ensinar as Corruirazinhas a voar longe do vidro. Será que entendeu meu convite? Sempre me olhou com respeito, antes me olhava com indiferença, percebi que tomou conhecimento de meu poder. Ai. Menina. Menina Lívia.

“Dez frutos. Porque não me levanto? Posso sair pela porta, colher os frutos e devorar tudo de uma vez. Medo da dor, eu sei. Não existe partida sem dor. Mas será dor maior que a dor de todos os dias? Será uma dor maior que a dor de viver? Não tem como saber. Sim. Só dez frutos.”

A menina levantou-se decidida. Menina, menininha, tua doçura encanta a todos da mata. Todos. Quantas vezes vi os Sapos te agradecerem teto na chuva, as Saracuras sendo atendidas quando pote de ração estava vazio. Vi você se afastar da clareira por respeito, onde ia acontecer uma festa dos seres da transparência. Os Gnomos, os Sem Nome, os que um dia te ajudaram a atravessar a estrada escura, quando sentia tanto medo. Porque você não tem mais o medo que tinha?

“É. Deu. Dor de vida não consigo mais suportar. 41 anos de dor de existência, quem agüenta? Fui. Nada de despedidas, nada de nada, porque tudo é motivo pra impedir. Chega. Um basta da dor. Um basta desse rachado interno, dor fina, insistente. Nem dor de dente impede. Vou pegar um copo d’água, ou melhor, uma jarra inteira. Não vou nem olhar para os lados. Agora o medo é de desistir da viagem.”

Oi, seres da mata, que bom ter vocês por perto. Menina Lívia vem chegando e... Não vai se deitar? Porque está olhando meus galhos? Você nunca quis meu chá! Está pegando um galho meu, mas não é uma flor. Não! É fruto! Os frutos, não! Não quero ser transporte de corte vital. É a primeira vez que se aproxima com esse olhar fixo. Estou dizendo a vocês, ela quer meus frutos, não deixem, não posso fazê-los apodrecer e cair. Não posso me mover, mas porque nunca senti falta disso antes? Vocês também não conseguem nada? Não podem impedir? Ela não ouve? Não vê?

“Um, dois, três. Que gosto azedo. Quase bala azedinha das sessões de ópera com minha mãe. Menos doces. Daquelas de papel azul listrado com branco, que fazia boca espumar, quando você me deu sua mão pela primeira vez. Nasci espirrando, te encontro amanhã na Creperia.
Quatro, cinco. Sempre me atraso, minha mão treme toda. Xii, caiu o papel de oradora da turma. Vento levou. Catei a pasta e tinha outra mão a juntar os pincéis. Dela lembro, mão espichada e morena, foi minha última lembrança quando não tinha mais rosto pra lembrar.
Seis, sete, oito. Já não devia lembrar mais nada? Ainda não, mas subi nas nuvens, cadê a lua? Vim buscar o amor que me prometeram, naquele carro azul que senti teu brilho sabor morango. Minha sobrinha nasceu, cantava na rua, distribuindo rosas. Amarelas que botei num vaso verde de cristal e amanheci chorando. Quem escreveria uma carta com cogumelos? Pra onde virava, você estava e não me deixava passar. Quis voltar para casa. E tinha que te machucar. Eu não vou te perdoar nunca. Sofá colorido onde acordei com teus olhos que ainda me olham.
Nove, dez. Quase nunca cumpro o que prometo. Plantas na minha casa, morrem. Você mentiu. Perdi a memória para não lembrar mais minhas mentiras. Como era teu nome? Parei de prometer. Cavalguei no por-de-sol e fiquei em segundo lugar. Fiquei devendo a conta da padaria. O único troféu muito feio. Não enxergo. Adoro a tontura da maconha. Fiz a foto da mulher enrolada numa toalha, indo se lavar de manhã no laguinho da praça. Há muito tempo parei de fumar. Tequila era a cura de meus males. No laboratório luz vermelha, tantas confidências. Champanhe foi o nome da fotografia minha nua. Saí no jornal. Uma moça de muletas caiu no ponto. Levantei sem nem dizer que o faria. Você me assustou! Na clínica um “bom dia” sonoro. Bisteca de porco no Bar do Valter. Desisti da psicologia. Café da manhã no Lola. Cadê o táxi? Teu sofá? Uma parede cheia de certificados. Promessas de parar com a dor de forma natural. Um deles dos machos anônimos. Achei. As chaves da moto. Teu olhar azul, azul, azul, azul. Tão rosa.”

O corpo de menininha Lívia estremeceu pouco. Ela não me ouviu, nem ouviu seus seres amigos. Estarrecidos. Cabeças baixas, esperam. A alma desfalecida de Lívia. Choro por ter sido seu destino. Os Gnomos acompanhados dos Sem Nome carregam Lívia espírito até a beira da lagoa. Entregam-na para as Fadas. Dançando no sol restante.

Gatos...

Para quem ama esses bichanos... ou não:

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