controvérsias

"A cada mil lágrimas sai um milagre”

Alice Ruiz

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Socorro

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sábado, 24 de janeiro de 2009

Meu Deus...

(texto de José Roberto Torero, tirado da Revista Fórum - outro mundo em debate, nº 2, 2001)

Eram 5h da tarde e, como fazem todos os dias desde o início dos tempos, os deuses juntaram-se numa nuvem para tomar seu chá (ou, no caso de Odin, cerveja). Os anjos voavam para lá e para cá servindo ambrosia e os querubins faziam o som ambiente, tocando harpa (Pan, de vez em quando, acompanhava no flautim).
Tudo ia bem e a reunião seguia animada: Zeus fazia suas imitações e Baco, já um pouco bêbado, imitava o Cauby. Porém, num dado momento, Deus falou para Alá (que é um sujeito parecido com Deus, só que com turbante):
- Os seus rapazes estragaram uma das minhas cidades por estes dias.
- Sua, não, que os motoristas de táxi são meus, interrompeu Vishnu (que é parecido com Deus, só que mais escuro).
- Alá sabe o que eu quero dizer, falou Deus, balançando o gigantesco indicador.
- Acidentes acontecem..., respondeu Alá.
- Acidente?
- Está bem, erros.
- Pois sua turma comete erros demais!
- E vocês? Pensa que eu já esqueci aquela história de Cruzadas?
- Você sempre volta para esse assunto...
- Até hoje não escutei seu pedido de desculpas.
- Os rapazes entenderam errado as minhas palavras.
- Digo o mesmo.
- Eles nos levam muito a sério, disse Javé (que é muito parecido com Deus, só que com um nariz maior) interrompendo a conversa dos dois. -Falando nisso, vocês conhecem aquela do judeu, do português e do papagaio vesgo?
- Não é hora para anedotas, falou Alá.
- Tudo bem, vou contar essa para o Quetzacóatl, despediu-se Javé resmungando.
- Onde estávamos?, perguntou Deus.
- Em todo lugar, respondeu Alá.
- Não, em relação à conversa.
- Ah, sim. Falávamos de intolerância e vingança.
- Pois é, o pessoal lá de baixo não consegue conviver direito.
- E nós aqui em cima nos damos tão bem... Temos um entendimento divino. É como se fôssemos uma família.
- Talvez mais que isso.
- Como assim?, perguntou Alá.
- Sabe o que eu penso?
- Como é que eu vou saber? Você não diz que é onisciente?!
- Penso que nós todos somos um.
- Já não basta você querer ser três, agora quer ser todos.
- É sério. Acho que eu, você, Javé..., e mesmo os chefes dos politeístas, como Zeus e Oxalá, somos todos um só, mas visto de maneiras diferentes. Interpretações culturais distintas de um mesmo ser.
- Já que estamos em clima de confissão, vou lhe dizer uma coisa ainda pior.
- É algo sobre Afrodite?
- Não, sobre os deuses em geral.
- Pena, pena...
- Desconfio que nós nem existimos. Somos apenas símbolos, tentativas do homem explicar sua origem, de encontrar um sentido para sua vida, um consolo para sua morte.
- Mas nós não estamos conversando agora?, observou Deus enquanto cofiava a sua vasta barba.
- Vai saber... Podemos apenas ser personagens de um escritor. E ruim.
- Se isso for verdade, o homem está entregue a si mesmo e nós não temos nada a ver com a história.
- Nada. A responsabilidade por todas as guerras santas, por todas as inquisições, por todos os assassinatos religiosos é só deles.
- Só deles?
- Só.
- Meu Deus...

A voz de Gupimpa

A chata da turma. Sim. Desde criancinha. Era eu. Com minhas orelhas pontiagudas, meu jeito transparente, meu chapéu vermelho e um tamanhinho. A primeira da fila. Detestava a escola. Gostava do recreio. Tinha uma pequena mata de eucaliptos com quem conversava todos os dias. E uma paineira gigante doída de velhice. Só que nunca escutava a sirene de término do recreio. E todos os dias a professora olhava seriíssima quando eu tentava entrar despercebida. Por causa desse meu jeito, era a chacota da turma. Por causa das minhas palavras, incompreensível, ficava sozinha. Na hora do teatrinho infantil, eu era chamada pra fazer a bruxa. E eu fazia. Mas de raiva, fazia linda, com vestido azul do céu, fita na cabeça, brilhos prateados e a varinha de condão com uma estrela na ponta. Quando me perguntavam que raio de bruxa eu era, explicava:
- Sou uma fada má, não uma bruxa.
E era. Uma fada. Nem má, nem boa e muito menos com varinha de condão. De chapéu. Vermelho.
Mas, as coisas mudam. E como mudam. Saída da escola quis ser diferente. E fui. Comecei a falar de um jeito que me entendiam, comecei a treinar a simpatia. Fui dando jeitos em tudo, menos no visual. Ah, eu amo minhas roupas rasgadas com cheiro de mato.
De tanto que quis, virei popular. Onde ia todo mundo gostava de mim. E eu ria, e ajudava, e conversava, e ria. E todo mundo adorava. Quase fiquei feliz. Tinha esperança. Mas um dia, por sinal um lindo dia, não quis mais. Encontrei outra fada. Achei que podia e era hora. De contar quem eu era.
Eu era e ainda sou. A chata da turma.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Quem brinca com fogo...

Prometeu, na mitologia grega, foi quem fez o homem do barro. Mais do que isso, roubou o fogo dos deuses do Olimpo e o presenteou ao homem para que ele pudesse dominar a natureza.
Uma das primeiras experiências do ser humano é queimar a língua.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

os bacuris da árvore

Ontem foi realmente um dia extraordinário, não só pela tarefa que impliquei em fazer: queimar antigos poemas, cartas de amor, textos e textos de uma xeroteca pouco usada... currículos antigos, fotos amareladas, borradas... projetos nunca realizados... uma limpeza profunda. No meio dessa coisa toda, num dia que fez um calor terrível - um sol de rachar - na beira da churrasqueira de tijolos empilhados, já na tardinha, chega a vizinha amigaça Helen para o café, quando...
- Chris, você tá ouvindo isso?
Isso era um grito de pássaro, o Anu, se não me engano, que tava ouvindo desde a manhã cedo.
- Não é Anu, não, Chris, isso é miadinho de filhote.
Caraca! Fiquei prestando atenção e de fato, o grito do pássaro se transformou em miadinhos desesperados, coisa que eu não podia imaginar. Começamos a procurar a origem dos gritinhos na mata ao lado da minha casa, no terreno de outro vizinho. Quanto mais perto a gente chegava, mais nítido se tornava meu engano terrível e embaixo de uma bromélia gigante foram aparecendo manchas pretinhas se mexendo e rabinhos que ficaram do lado de fora da planta protetora. Quatro. Achamos quatro filhotinhos e que não eram de gato, não. Quatro filhotinhos de cachorro recém nascidos. E mesmo com eles na palma das nossas mãos, os miados/ganidos não paravam.
- Tem mais, Chris, mas onde estão?
Porque olhei pra cima, não sei, só sei que olhei. E vi. Um saco plástico azul de supermercado pendurado na árvore, balançando mesmo sem vento. Tirei o saquinho lá de cima e alcancei pra Helen que encontrou mais três filhotinhos. Dois mortos pelo excesso de calor e desidratação e uma menininha toda pretinha, viva, da metade do tamanho dos outros.
Nessas horas perco completamente a fé no ser humano. Fiquei com tanta raiva, mas tanta raiva... como queria encontrar o cara que fez isso, amarrá-lo dentro de um saco plástico e deixá-lo sem água nem comida pendurado numa árvore embaixo desse sol de verão. Ah, como queria.
Levamos para a minha casa, colocamos dentro de uma caixinha de papelão com uns paninhos e começamos a telefonar pra todo mundo, em busca de uma cadela mãe que pudesse adotar os pequeninos, ainda com umbigo e de olhinhos fechados. O veterinário da nossa comunidade, Dr. Luis, começou a dar dicas de como cuidá-los até que o interrompi e exclamei:
- Doutor, nós estamos numa fase meio complicada, contando os centavos, como vamos comprar leite para cachorro recém nascido?
- Não te preocupa, Chris - responde o doutor - vai na agropecuária e põe na minha conta.
Lá fui eu. Depois, numa farmácia, que doou as seringas que estamos usando para amamentá-los. Chego em casa, arrumo as coisas e quando me viro, encontro essa cena: E desse jeito, voltei a sentir alguma fé no ser humano.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Pedro (2)

- Bem que tu podia ser minha irmã, né, Chris? E do meu tamanho pra gente brincar.
- Sabe que é uma boa idéia? Eu ia gostar, Pedro, de ser do teu tamanho.
E os olhos brilham intensos em plena descoberta de cinco aninhos:
- Mas tu É minha irmã!!!!! Da parte de Deus tu é minha irmã, porque todo mundo é filho de Deus, né?
Eu também te amo, Pedro das soluções simples.

Pedro (1)

Pedro e Milene são amigos mais que amados, e tive a sorte de passar tempos fantásticos e mágicos com os dois. Pedro tinha entre 4 a 5 anos. Hoje ele está com 8. Estar com ele, cuidar dele, é tudo o que há de bom. Com vocês, histórias do Pedro:

Pedro é parceirão. Topa todas. Vamos à praia? Vamos desenhar? Vamos ver desenho? Vamos fazer compras?
Tudo é passeio, diversão, aprendizado. Pedro quer sempre participar, conhecer. E lá fomos nós, no carro de Fausto. Saindo do portão, Pedro abriu a porta com minha cachorra pela coleira:
- A Zurra vai junto!
- Tá, Pedro - acenei com a cabeça, sinal para Zurra pular dentro do carro, junto com Pedro no banco de trás. Pelo tamanho igual, pareciam duas crianças.
Enquanto Zurra espera do lado de fora do súper, Pedro se cansa rapidinho das compras:
- Vou lá fora cuidar da Zurra, tá?
E sai com seu jeitinho de homenzinho todo sério. Fica de pé, junto dela que fica sentada, perto dele.
Afinal de contas, quem estava cuidando de quem?

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O Encontro (2006)

Disse meu professor poeta que raramente entendemos onde estamos. Morando na beira mar, sempre olhei com a visão do cotidiano: praia, areia, água rasa, ondinhas, água funda, ondões... E até então, considerava tudo simples e mais que tranquilo até ser despertada pelas palavras, pela lógica e pela geografia. Afinal de contas, não é só praia e mar, é Oceano Atlântico e América do Sul. O encontro.
Nossa, comecei a me sentir importante. Oceano Atlântico com todas as referências e memórias de viagens, naufrágios, transatlânticos, baleias, golfinhos, placas, abismos marinhos, maremotos, peixes e mais peixes, tempestades, ciclones, ondas gigantescas, piratas, descobertas, mistérios.
Continente. América do Sul. Países de língua espanhola, índios trucidados, desaparecidos, português Brasil, corrupção, Floresta Amazônica, Lago Titicaca, deserto de sal, picos nevados dos Andes, Cabo Horn, Carnaval. Culturas miscigenadas. Cultura latino-americana.
Voltando a praia, extensão do meu quintal. O pé de um lado, Oceano Atlântico; o pé do outro lado, América Latina. Oceano, América, América, Oceano, feito jogo de amarelinha. Sentei entre as duas fronteiras: bunda na América, pernas e pés no Oceano. O olho, até o Sol; às vezes, até a África, e um pouco, até minha casa, e de repente, gaivota.
América Latina, Mercosul, Brasil, Santa Catarina, Florianópolis, Armação, minha casa, praia, areia molhada. Oceano Atlântico Sul, Plataforma Continental, milhas brasileiras, zona costeira, rebentação, ondas, aguinha rasa.
“Tua praia é uma delícia, Chris!”, exclama meu amigo Pedro de cinco anos. No encontro de dois gigantes, toma sol uma pequena alma doce.

sábado, 10 de janeiro de 2009

wingsurf

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Pena Plena (2006)

Um dia de chove, não chove. Aquele torpor que espreguiça. Uma mensagem de fumaça atravessa os galhos. Um dia de vento fino, quase insentido, quase branco. Fico sentindo o formigamento da pausa. Não sei se quer movimento ou silêncio. Gosto de deitar nas pedras, sinto a certeza de que não vão sair dali. Como eu saio flutuando, sem sentir corpo, nem mente, nem pele. Adoro ver o mundo em cores e relvas amarelas. As portas abertas, as passagens de vento, sopro que me leva até o cume, pensamento insolente e azul. Quando sinto ausência, sinto branco. Cega de luz. O olho fechado vibra o dia em laranjas e roxos. Vazio que promete algum nascimento. Passeio por um mundo sem peso e sem pés. Minha culpa é azul. E o amor, rosa. Dei de presente à natureza que me acolheu sem perguntas. Penso que sinto que estou caindo. Sinto que penso feito folha, palavra desgarrada, som que desgarra da boca e cai. O pensamento desgarra da mente e sai planando, livre, livre. Quase cai quando um golpe de vento pega no colo uma idéia que vai crescendo, crescendo e se espatifa no portão. Uma pena desgarra do corpo da coruja. Adormeço dentro da pena verde, voando na palma leve, plena de sonhos sem sol.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Benvindo Quincas

Apresento a vocês o Quincas, que nasceu um pouco antes do Natal na Fazenda Passo Alegre, onde vivem meus pais. Abrir a janela e vê-lo cabriolando feliz... tudo de bom. Benvindo a esse mundinho, Quincas.

O quinto é

Paz no tempo
Espírito insano
Queima no ardil

Tempo sem paz
Flutua na ilusão
Mar chorando rio

Ser sem tempo
Voz com o vento
Às vezes se ouve

Tempo do ser
Amando e odiando
Espelho da terra

Lua que cega
Coração do céu
Tempo de entrega

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Amor próprio

Tente salvar-se da areia movediça puxando os seus cabelos.

domingo, 4 de janeiro de 2009

sábado, 3 de janeiro de 2009

Carmen por Carmen

A Alice é uma doida grosseira. Não sei como a Chris aguenta. A Chris tá ali, fazendo o melhor possível, a Alice já chega empurrando e sai no tapa: "Deixa comigo!" E a Chris deixa... fica olhando de um canto quase desolada. Eu jamais deixaria essa louca escandalosa fazer qualquer coisa por mim. Vou lá, fico pertinho da Chris, abraçadinha nela. Sabem, eu dou um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra sair correndo de uma. Eu sou triste e a Alice me detesta. É que tudo dá errado pra mim, mas eu não acho que tenha que revidar ou consertar ou qualquer coisa assim. Porque vai dar errado de novo. É uma sina minha. Nem tento mais ser diferente. Pra quê? Pra chorar mais ainda? Pra ficar além de triste e sozinha, toda doída de tanto apanhar? Nanananina. A Chris me entende e fica comigo nos dias mais tristes. A Alice? Vem chegando, dando tapa nas costas e gritando: "Sai dessa, Carmen, vamos sair pra dançar, rodopiar pelas avenidas, beber todas, paquerar todo mundo!". Eu não gosto dessas coisas. Ficar se expondo inutilmente por aí e depois fazer coisas que a gente nem lembra direito se fez ou não. Ui. Quero não. Eu quero mais é ficar conversando baixinho, de preferência embaixo das cobertas, longe da luz do sol e de janelas bem fechadas. É que o mundo me assusta. É tudo tão agressivo. Quando tenho que sair - ai! - vou encolhida, rezando pra que ninguém me veja. Morro de medo de ser agredida e quase sempre sou. Um olhar mau humorado, uma cara safada demais, e quando gritam: "Ei!" Ai. Dói meus ouvidos, dói na minha alma, já saio correndo, volto pra casa, pego a minha gata de pelúcia e me enfio embaixo da cama. Como podem ficar falando alto desse jeito? Minha cabeça fica rodando, o barulho é insuportável, porque não mais baixo? Ou menos, pelo menos.
Não me dou bem com as pessoas. Mentem demais, tem um jeito cheio de joguetes, e pra quê? Seria tudo tão mais fácil se a gentileza imperasse, se as palavras mais duras fossem ditas do jeito mais doce.
Ó, é só lembrar do lado de fora da minha casa que eu já começo a chorar. É muito escuro tudo. Não é o escuro da lua, é o escuro dos corações. Machuca. Espinha. Por causa disso, mesmo doendo, prefiro ficar sozinha. Dói menos. Dá pra esquecer que o mundo existe, que o coração existe e o melhor: dá pra esquecer que eu existo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A Alice pela Chris

A Alice é uma doida linda. Nos conhecemos ano passado, quando, as voltas com acontecimentos que eu não sei lidar, ela apareceu sorridente e confidenciou: "Deixa comigo!" E eu deixei...
Que susto. Que surpresa fantástica vê-la empertigada, furiosa, a me defender dos meus desvarios. Enquanto Carmen se esconde em posição fetal e chora baixinho, num canto, esperando um milagre acontecer, esse milagre se chama Alice. Eu só fico olhando. Abismada. Aparvalhada. Porque com Alice não tem conversa. É no grito. E diz o que pensa e sente sem piscar. Firme. Orgulhosa dos seus chutes em todos os baldes. Se é correto, se não é, se fica bem na fita, se não fica, se tá sendo inteligente ou não, tá nem aí.
Alice grita que é. Grita que ama, grita que sente raiva, grita sua mágoa. Pra Alice nada é pouco, e nada pode ser deixado de lado, como se nada fosse. Pra ela, nada é nada. Tudo tem o valor do seu ser que sente. E fica brava comigo: "Pô, Chris, você vai deixar pra lá? De que jeito? Não pode ser assim. Deixa que eu falo!" E sai gritando e chutando e barbarizando os civilizados. E com esse grito franco atirador Alice me defende, e por consequencia, me liberta. Grande Alice. Muito obrigada.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

do Fer

Encontrei essa arte para o ano novo num blog fantástico: http://cosodeilustradores.blogspot.com