controvérsias

"A cada mil lágrimas sai um milagre”

Alice Ruiz

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ravi Noel

Ravi nasceu há mais ou menos um mes, em Canela, durante um dos temporais que assolou o estado do RS.
Ele se transformou em meu raio de sol diário, com suas peraltices, seus medos e curiosidades.

Não resisti de usar sua figura para compartilhar esperança, luz, inocência saudável, alegria sem razão de ser, com a razão de existir, somente.

Repito o que falei o ano passado: que todos os dias sejam festivos, natalinos no espírito solidário e de amor.
A cada dia impera a solução do futuro: coletividade. Ainda temos muito que aprender.
Que seja na alegria, não na dor.

Com amor a todos
Grande abraço

Chris


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A gargalhada
















Há de ser intraduzível o solo dessa indentidade!
Há de ser descampado o passo desse sonho!
Há de SER... Mesmo no estar de seu experimento.
Gota de traço, tinta solúvel, olho de aço...


Poema: Eunice Boreal

sábado, 24 de outubro de 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mosca na Sopa (2005)

Sentada em sua cama cor-de-rosa, a menina sonhava com seu príncipe, o garoto que morava ao lado. Esquecida da vida, no delírio da paixão juvenil, do sonho brotou um desejo tão grande, sentenciou:
- Queria ser uma mosquinha para ver o que ele...
E assim foi.
Diminuta, de asas transparentes, voando atrapalhada, encontrou a porta de abertura imensa, desceu voando as escadas. De súbita fome, atravessou para a cozinha pousando aqui e ali, pra dar uma descansada. Não fosse sua cor rosa, diria que era uma mosquinha qualquer. Da fome e do cheiro doce da cozinha, esqueceu seu desejo de ver o que seu amor fazia, abrandou sua alma em um torrão de açúcar esquecido sobre a mesa.
Logo chegou um moscão azul radiante, a disputar a doçura do torrão. Generoso, ofertou um ladinho; delicado, encostou suas asas imensas nas suas pequeninas.
E assim foi.
Do torrão de açúcar encontrou casa em uma casca de banana. De uma dor improvável, largou ovos transparentes. Exausta e esfomeada, com saudades de sua mãe, voou tonta para a sala. Lá encontrou um cheiro conhecido e fumegante. Ainda tonta de amor e de parição, seguiu sua índole de mosca, e ao chegar na fumaça quente, encharcou-se e não mais voou. Afogou-se na sopa.
Dos ovos transparentes, um vingou. De pequenininha, cresceu. De doce em doce, de tapa em tapa, escapuliu; de açúcar em açúcar, virou mosca lilás.
Só que sentia solidão e ausência. Sentia curiosidade que mosca não tem. Porque chorava. Porque pensava: “quem sou?” E dessa natureza voou pela sala da casa, enveredou pela escada e numa imensa porta, passou. Pousou numa cama cor-de-rosa, olhou pela janela e viu. Viu um menino que parecia príncipe. Esquecida da vida, no delírio da paixão juvenil, do sonho brotou um desejo tão grande. Sentenciou:
- Queria ser uma menina para conhecê-lo.
Criou perninhas, barriga, braços e fome. Criou peito, alma e dor. Criou coração, cheirou amor, despertou desejo. Queria sopa, menino e mãe.
E assim, foi.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

auto retrato


"Uma grande ursa de pelúcia", dizia a Dani ao me apresentar

domingo, 11 de outubro de 2009

mutações

quedabismo
sempote
sedentafui
dormente
lamacenta
napoça
norvalho
modorrento
seca
nalma
alizarim

domingo, 27 de setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A natureza humana

É muita discussão, muita filosofia, alguns com certeza absoluta da inerente bondade, outros da certeza absoluta do gregário bicho sobrevivente, outros ainda da certeza absoluta do egocentrismo.
O medo como base, o domínio como combate ao medo. E por aí vai.
Ultimamente minha moto tem dado pane nas saídas de mercado, banco e etc. A bateria pifa (hora de trocar, eu sei) e preciso sair correndo fazê-la pegar no tranco. Sem piso, sem inclinação, por mais leve que seja, fica mais pesado as vezes, mas dou conta.
Agora, sempre, inevitavelmente, aparece alguém oferecendo ajuda pra empurrar a bicha. Sempre. Sem exceções.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Praia do Saquinho




segunda-feira, 17 de agosto de 2009

domingo, 16 de agosto de 2009

Nascer do Sol

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pôr do Sol

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Brincando

sábado, 25 de julho de 2009

inverno 17

Dunas da Joaquina, 23 de julho de 2009


































Psiu! É fotomontagem...

domingo, 19 de julho de 2009

inverno 3

Três choros estão guardados numa lata de azeite, me avisa o Edu.


















A você, Edu, e ao Alemão: meu amor, minha amizade e gratidão.

inverno 2

Um gato pródigo, voltou pra casa depois de um ano. Bichos exigentes, amigos exigentes, todos se doam e se perdem. Pedem e querem e vem e voltam e cozinham e arrumam e banham-se e queixam-se e riem de tudo. O choro, esse fica guardado numa lata de azeite.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

inverno


sábado, 13 de junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Existe
















Poema:
Uby Oliveira
Arte:
Chris Mayer

terça-feira, 2 de junho de 2009

Mudança

É. Mudar de casa, tirar as coisas do lugar, virar tudo de cabeça pra baixo e depois inventar outro jeito das coisas estarem. As vezes um jeito melhor, as vezes um jeito pior. Depende. Relativismo sempre. E nessas de encaixotar é que os pequenos re-encontros acontecem. Amáveis, detestáveis. Eu já deixo a fogueira da churrasqueira acesa pro excesso de papéis com escritos ruins, cartas amargas, textos inúteis, até pra outra pessoa. Tem livros que só servem mesmo pra serem reciclados e olhe lá! De repente, melhor mesmo é queimar, por exemplo... por exemplo... hummm... peraí... eu vou lembrar algum que não tenha vergonha de dizer que um dia esteve em algum canto da minha casa. Os re-encontros que mais curto são aquelas que não quero deixar de levar e que apenas me espanto na mudança. Aquele presente de um ex amor, a pedrinha da praia onde perdi a virgindade, o meu primeiro livro: Das Schnurpsenbuch. E os re-encontros que dão aquela ponta de culpa: fazeres que foram ficando, ficando, ficando, empoeirando, e alguns, churrasqueira; outros, voltam pra fila de espera da interminável pilha do "um dia". Agora mesmo tô olhando pruma chaleirinha de apito de brinquedo... Meu deus, da onde fui ter a ideia de comprar uma chaleirinha, de apito, e de brinquedo? Pego ela na mão e o susto! Havia esquecido que na verdade é um timer de cozinha e que, na verdade nunca funcionou. Gira na hora certa, termina na hora certa, só não toca. Outro re-encontro gostoso são os CDs. Na hora de guardá-los, inevitavelmente, vários vão pro cdplayer, as lembranças regurgitam da memória. Aquele show, aquele momento, aquela dança: Nossa! Passei meses ouvindo esse sem parar. E saio cantando as letras de cor, sem errar. Tem aquelas coisinhas que nunca sei o que fazer com elas como quadrinhos, por exemplo. Não quero me desfazer por serem presentes, não quero pendurar, não quero ficar olhando todos os dias; alguns, volta a esperança de, na nova casa, ter um espaço perfeito pra ele, outros... E assim com outros pequenos objetos também: bibelôs que os gatos vão quebrar se eu tiver a ideia infeliz de expor em alguma prateleira. Meus amados gatos são educados, mimados, mas nunca consegui impedir de quebrarem algo muito precioso ao meu coração. Apanham depois, mas depois. Já era. Cartões carinhosos, cartões postais com fotos incríveis, bilhetes de teatro, cinema, espetáculo de dança inesquecíveis, que só lembro quando os re-encontro em alguma mudança. É.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Cravo da Terra

Conheci a Ive no laboratório de escrita que ando fazendo. Mais um pequeno mico, todo mundo sabia quem ela era, menos eu... sempre desavisada das coisas todas. Cantora do grupo Cravo da Terra, que vive aqui, em Florianópolis. Esse encontro foi o empurrão que faltava para dar início ao meu novo blogue: "sem nome ainda", blogue dedicado aos artistas todos, nacionais e internacionais, de Música à Escultura, Pintura e Fotografia. Cinema, Literatura, Artesanato, inclusive. E que me perdoem as outras artes todas que não enumerei. Todos os arteiros e seus crimes poéticos cabem aqui, nesse blogue de downloads e links.
Nada melhor que começar com eles, Cravo da Terra, e uma palhinha aqui, pra ficar com água na boca. No "sem nome ainda" você faz o download do CD completo e, o melhor, com autorização do grupo.
Tem mais, querendo conhecer melhor essa galera, tá aqui os links:

www.cravodaterra.com.br
myspace.com/cravodaterra
myspace.com/ivenluna

video

segunda-feira, 18 de maio de 2009

o ar da graça
















Poema: Uby Oliveira
Arte: Chris Mayer

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Pitchulinha com 2 meses e meio



É... o tempo passa. Nossa sobrevivente de 7 pequenos encontrados em um saco plástico numa árvore cresceu linda. Apareceu bastante gente para adotá-la. Não deu. Não conseguimos doá-la. Ficou com o Francisco, filho da Helen. Essa história você pode conhecer melhor nos Bacuris da Árvore e Lilás, a sobrevivente, precisa de uma nova casa.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Com amor aos deprimidos

A primeira coisa que devo destacar é que esse texto diz respeito as minhas experiências, mas com a convicção de que não sou a única. Então, me perdoem o estilo egoico e sintam-se em casa, ou não, por estas linhas.
Eu sou uma pessoa deprimida. Depressão, dizem, é uma doença. Uma doença que pode ter fundo químico, avisam alguns, e os mais informados sabem que a depressão é apenas um sintoma de uma doença grave da alma. Penso eu que a fase aguda das minhas crises depressivas nada mais é que a dor de viver gritando mais alto que o resto. Sim, porque dor de viver, dor da vida, dor de estar vivo, tenho 24 horas por dia, desde que me entendo por gente, já que não posso garantir o “desde que nasci”. Já veio junto com a esperança de um dia essa dor deixar de existir. Bom, essa esperança hoje não existe mais, o que acontece é que tem fases onde ela lembra a picada de um mosquito, ou a suave compressão que amarrota o peito, e outras fases que ela bomba pelo corpo inteiro, vira furacão e destrói o que encontra pela frente.
As pessoas divido em várias categorias, que não são excludentes, pelo contrário, se somam, e até tenho vontade de fazer uma enquete. Vou fazer. Um dia. Mas entre as várias categorias existe uma que é a dor de viver. Tem gente que sente, tem gente que não sente. Tem gente que diz que todo mundo tem. Esse é um outro tema que vou passar de raspão e aprofundar uma outra horinha: a incapacidade que o ser humano tem de ver a diversidade da vida. De simplesmente achar que todo mundo sente igualzinho a ele. Caros amigos, saibam, as pessoas são diferentes e sentem diferente em relação a muitas coisas. Ouvi várias vezes uma pessoa falar que não acredita em bissexualidade. Pode continuar não acreditando que vai continuar existindo, muito bem, obrigada. Quando ouço alguém dizer que viajou o mundo inteiro e percebeu que o ser humano é igual nos quatro cantos do planeta, desconfio seriamente que essa pessoa não saiu de casa mentalmente. Simplesmente enxergou o mundo inteiro como se fosse a esquina de sua rua. Mas confesso, é difícil, difícil mesmo entender que as pessoas podem ser diferentes da gente. O que absolutamente não as impede de serem. Ainda bem.
Tem gente que acha que depressão é doença de rico, porque pode se deprimir, porque se tivesse que cuidar de um filho ou de sua subsistência, não se deprimiria. Garanto a vocês que é só uma questão de nomes. Quem tem informação, estudo, essas coisas, tem depressão; quem é paupérrimo e sem informação, “sofre dos nervos”. E todos os transtornos chiquérrimos que podemos sofrer: déficit de atenção, bipolaridade, transtorno de imagem, transtorno delirante e por aí vai, podem se transformar rapidamente em “doença dos nervos”. Mas tenho a leve desconfiança de que esses transtornos na verdade são peculiaridades, traços de personalidade que foram tragados pela falta de produtividade e, principalmente, pelo incomodo social, e enquadrados como “transtorno”. E dê-lhe comprimidinhos para que a culpa não aterrorize o pobre ser que não está dentro dos parâmetros de um bom comportamento social. Haja Prozac!
A culpa. Uma das maiores causas da depressão é a culpa. Sim, a culpa. Maldita culpa. E essa culpa é consideravelmente ampliada com a famosa crença “tudo depende só de você”. Essa é a parte que mais me fascina. Vivemos numa sociedade onde tudo está interligado. Para que eu tenha luz elétrica em casa existe uma infra-estrutura gigantesca que precisou de transporte, de muitas obras e de muitas, mas muitas pessoas que trabalharam nisso e que ainda trabalham. Eu dependo de todas essas pessoas para ter luz em casa. E quando falta luz na minha casa a culpa é de quem? Se não paguei a conta, é minha e se paguei em dia, bom... da “empresa”. Uma instituição que se chama “pessoa jurídica”. Bom, é uma pessoa. Embora não tenha carne, ossos, nem coração. Aliás, adoro quando uma “pessoa jurídica” me responde que não pode atender a determinado pedido porque o “sistema” não permite. Eu saio correndo para colocar meu nariz de palhaço e falar com voz fanhosa ao telefone.
E é essa mesma interligação, essa infra-estrutura gigantesca que criou nossas incríveis cidades e que precisa funcionar sob o mau augúrio de um colapso e de pânico geral, que necessita de pessoas muito bem comportadas. De preferência, sem nenhum tipo de transtorno. É só um exemplo muito simples de que as coisas, ou meu fracasso, ou meu sucesso, ou minha cura, ou minha não cura, não dependem só de mim. Também dependem do funcionamento do SUS. Tô ferrada. No máximo, isso quando possível, o primeiro passo da vontade é meu. Ok, mas como ter vontade se a essência da depressão é exatamente não ter vontade? Concordo, é um pouco perigoso esse meu parágrafo anterior porque posso fomentar a autopiedade e a capacidade de um sintoma intrínseco a qualquer doença da alma que é a de “ser vítima” de um mundo cruel, de uma mãe cruel, de um marido cruel, de um filho cruel, de um chefe cruel, de uma vida cruel. Mas não é essa a idéia que quero passar, quero apenas que me ouçam, malditos seguidores do “você pode se acha que pode”! Eu sei que não posso, e a culpa me rói inteira por dentro por saber disso. Além de sofrer um tanto pela doença, ainda devo acrescentar a culpa de que a culpa, afinal das contas, de existir, de doer, de ser assim, é minha. E exclusivamente minha! Não posso culpar ninguém por isso, então, porque culpar justo a mim? Para que eu possa sobreviver com um mínimo de paz, passei a acreditar que a vida é assim, cheia de sortes e azares, de sincronicidades, mas também de coincidências.
E ainda acrescente a esse caldo de culpas, a culpa do fracasso. Sim, porque hoje, onde a felicidade se tornou um status social (quem é feliz é uma pessoa de sucesso), ainda carrego mais isso: sou um grande fracasso. Haja. Haja leão pra matar. Vários por dia. É incrível, conheci uma menina que se dizia com mais autoridade que eu sobre determinado assunto porque era feliz há 28 anos! Meu deus! Como que ela aguenta tanta felicidade assim? E já imaginou que peso ter que sustentar esse incrível recorde? Claro, quase ia esquecendo o não direito que tenho de ser uma sofredora e uma infeliz. Tanta gente passando fome, tanta gente doente, e eu aqui, sofrendo por nada! Dizem que o amor cura tudo. Dizem que uma vida sem amor não é nada. Minha vida, infelizmente, está sem amor (eu sei, eu sei, a culpa é toda minha). Mas não posso ser infeliz porque tem gente passando fome. Mais culpa. A culpa de ser infeliz com tanta gente no meio de guerras, desesperada sob as piores condições que nossa perversão pode causar. Realmente, estou bem melhor que estas pessoas. Uma constatação, um fato, que não alivia minha dor. Traz mais culpa ainda por sofrer com toda essa capacidade, com toda essa informação, essa articulação, essa inteligência, esse conhecimento, tanto talento, essa cultura! Ok, vocês venceram. Podem escrever na minha lápide: “Ela tinha potencial”.
Dizem também que a culpa é não ter nenhuma crença: não ser budista, capitalista, comunista, xintoísta, hare krishna, não ser da antroposofia, da filosofia, da culosofia, não ter nenhum isto, ismo, que caiba nas minhas não ideias ou não ideais. Li em algum lugar que foi deus quem me fez assim. Acreditando em tudo, desconfiando de um tudo.
Outra característica marcante de quem é doente da alma é uma capacidade infinita de fazer mal a si mesmo. Nunca tiro primeiro lugar em lugar nenhum. Se chego a ter chance em alguma coisa, boicoto. Se conheço pessoas bacanas, afasto. E é absolutamente incontrolável. Quando penso que passei a perna nos meus boicotes, é porque ainda não percebi a armadilha que armei. E lá vem galopando, com toda sua alegria... adivinhem. A culpa. Ela mesma. Em pessoa. Com sua voracidade judaico-cristã que me pune por não ser casada, por ser mulher e carregar o pecado original, por não ter emprego fixo, por gostar de sexo, por ser obesa e fora do controle social e da linha dietética caríssima dos supermercados. Vocês já viram o absurdo do preço dos orgânicos? Diz uma amiga querida que “a gente paga pela consciência”. Não entendo que tipo de consciência é essa, tão elitista. Me dei conta desse absurdo em um restaurante perto da minha casa, que vende também produtos naturais e orgânicos, onde havia uma prateleira de suco de uva com a mesma garrafa, da mesma marca e dois preços. Uma com selo de orgânico, custando 60% a mais que a outra, sem o selo, da mesma fazenda, do mesmo produtor e da mesma terra! Voltei correndo pra casa colocar o meu nariz de palhaço, com a garrafa mais barata, pelo menos. E apesar de todas essas coisas e muitas que poderia acrescentar e que não me vem à cabeça nesse momento, continuo deprimida.
Mas hoje, lendo um e-mail de uma lista de discussão, um textinho lindo, que me fez lembrar um tempo cheio de esperança, de alegrias pequeninas e máximas, de profunda gratidão. Uma vaga ideia de como pode ser diferente bateu no meu coração. Tinha esquecido a lição da guerra que minha alma trava: tudo passa. Até a depressão.

terça-feira, 7 de abril de 2009

As únicas almas que sentem cócegas, são as almas teimosas

(Andrea, querida, esse é para vc, um texto de Helena Paix)

Conta a lenda, que o bebê se transformou em criança, e que a criança se transformou em menina, e que a menina se transformou em mulher. Como depósito que cresce, que aumenta de tamanho, a cada transformação externa, ela também se transformava internamente.
Acontece que depois que virou mulher, ela percebeu que se passavam meses e meses com o seu espelho mostrando aquele mesmo rosto. E embora ele não se transformasse mais tanto, ela percebia que por dentro ela vivia transformações constantes e avassaladoras.
Parecia que sua alma não havia sido informada de que o corpo parara de crescer: e continuava, teimosa, a querer andar de mãos dadas com o tempo, a querer aumentar junto com os anos.
E ela gostava daquela teimosia: ela gostava que sua alma teimasse em crescer para além do corpo que estacionara.
Às vezes olhava para as pessoas ao seu redor em espanto: tantos caminhavam iguais; tantos pareciam dormentes; tantos tinham almas que não eram teimosas, almas que haviam parado de crescer.
E nas dificuldades e desafios que a vida sempre também teimava em lhe apresentar, ela havia descoberto outra artimanha de sua alma: sua alma sentia cócegas!
E ela ria tantas e tantas vezes com as gargalhadas de sua alma: com o riso de si mesma depois de cair em meio a um shopping lotado; com a alegria de receber o e-mail tão esperado; com a esperança de que aquela mulher tão especial sentisse o mesmo que ela sentia; com a crença de que mesmo que o hoje tivesse sido tão, tão difícil, que o amanhã estava sempre ali, também teimoso, a trazer com ele um novo dia.
E a sua alma então encontrava sorrisos nas cócegas que sentia: e ela, com isso, aprendera a ver as belezas sutis do mundo.
E o mundo rodopiava, dançando com sua alma, com apenas uma certeza necessária dentro de si: almas precisam ser teimosas.
As únicas almas que sentem cócegas, são as almas teimosas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Obsessão (2005)

Uma torneira pingando. Hoje não. Irritação igual a chefe reclamando o mesmo. Igual janela batendo com o vento, martelada nos ouvidos, dívidas mais dívidas. Igual a ela falando: “hoje não”.
Hoje torneira pingando, raiva de pingo - não pára. Nossa raiva prefere torneira jorrando a gotas sonoras. Água reciclada da nossa própria merda. Pensamento obsessivo, lixo emocional. Uma torneira sentimental feito nascente que vira rio. E nos afoga. Hoje. Sim.

segunda-feira, 30 de março de 2009

quinta-feira, 26 de março de 2009

Piratas Fake

Flávio sempre desejou uma companheira cúmplice, com afinidades, com desejo de crescer. E era extremamente exigente ao escolher uma namorada. Essa exigência é aquela, que não passa pela razão, mas pelo coração que releva todos os sinais de que aquela pessoa não é o que a razão queria, mas... era ela. A Raquel. O seu sonho encantado.
Apaixonaram-se perdidamente, mas pouco se encontravam. Flávio, as voltas com suas indecisões, sua tendência artística conflitando com a praticidade do dia a dia, dividia sua atenção entre os amigos roqueiros e maltrapilhos e a atenção dada a Raquel: apenas MPB suave e um cuidado pisando em ovos. Tudo tranquilo, Flávio tinha tudo isso dentro dele. Mas, aos poucos, com a relação crescendo, Flávio já não convidava mais os amigos porque Raquel estava sempre com dor de cabeça, não se sentindo bem, tinha planos futuros que não davam resultado, tinha ambições e nela não cabiam os amigos de Flávio com costumes amorais.
Ele, dedicado, procurava entender tantos humores tristes, procurava com afinco mostrar a ela toda a alegria de viver que ele tinha. Buscava caminhos de harmonia entre os dois, planejava eventos de beleza simples – banhos de lagoa, jantares a luz de velas – mas Raquel, embora receptiva aos seus carinhos, não mudava seu humor pesado. Com a intimidade, passou a ter ataques de raiva, se sentia desrespeitada por qualquer brincadeira que Flávio, em vão, tentava dar uma quebrada nas conversas tão sérias, no que Raquel, furiosa, revidava fechando a cara. Quanto mais Flávio se esforçava, mais Raquel se encolhia, a cara brava.
Decidiram morar juntos. Flávio pensou: “Agora sim, tudo vai ser diferente, seremos felizes na nossa casa.” E a mudança ocorreu cheia de atropelos, a vida material pedindo urgência, a grana curta, mas estavam lá, juntos. E Raquel, contrariada, não dormia mais com ele, se fechava em copas, não o beijava, mal falava.
Flávio não aguentou mais. Resolveu que era hora de colocar os pingos nos is e dizer o que sentia. E disse. Despejou sobre Raquel seus desejos contidos, suas impressões, a falta de amor dela para com ele, toda a sua frustração. Raquel olhou estupefata: “Flávio, desde que cheguei você só tem me agredido, eu estou tendo a maior paciência com você.”
Flávio surtou ao ouvir a Raquel reclamando dele. Começou a chorar sem parar, gritava e esperneava a incompreensão de Raquel que, a partir desse instante, virou a companheira que Flávio tanto desejava. Amorosa, compreensiva, ficou ao lado dele durante sua crise que durou dois dias. Fez tudo para aliviar o sofrimento de Flávio – sexo, inclusive – e toda sua atenção estava voltada para ele.
Flávio, cheio de remorsos, sentiu-se muito mal. Sentiu-se doente, acabado, neurótico, a beira da histeria. Percebeu, tristemente, que era ele o mal da relação. Que era ele que fazia com que tudo desse errado. Raquel, por sua vez, só o estimulava a aprofundar seu novo conhecimento sobre si mesmo. E tomou as rédeas da situação, enquanto Flávio transformava-se num triste sonhador decepcionado. Ele era o erro de tudo.
Flávio já não faz mais jantares à luz de velas, não sorri mais com espontaneidade, não brinca mais. Não ouve mais rock e não se encontra mais com ninguém.
Finalmente, ele era só, somente dela, da Raquel, que faz tudo por ele.